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 BRUXAS DE SALÉM     SALÉM, 1692 

 

QUANDO A IGNORÂNCIA ATINGE AS RAIAS DA LOUCURA

 

 

            Corria o ano de 1692 na Nova Inglaterra, EUA, então colônia da Inglaterra.

          Depois de um rigoroso inverno, a vida parecia fluir rotineiramente na pacata localidade de Salém, perto de Boston, capital da província de Massachusetts. 

          Salém fora colonizada pelos puritanos, que ali construíram uma comunidade de cunho teocrático e voltada para si mesmo.  Desde 1626, quando ali chegaram ali, fugindo da perseguição religiosa na velha Inglaterra, tiveram que conviver com animais selvagens, índios e um nova terra muito diferente do que tinham no velho mundo. Isso fez com que lendas e superstições do local influenciassem o rígido estatuto sobre o comportamento religioso da comunidade.

 

            Os puritanos seguiam uma moral severa, com base na Bíblia, e se consideravam o povo escolhido por Deus, não permitindo a ingerência de pessoas que não seguissem os seus ditames fundamentalistas. Ninguém em Salém podia entrar na igreja senão eles, nem ter terras na região senão eles.

       

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Salém, em 1760 (Rua da Escola)

     A cidade era administrada pelos ministros da religião, que não titubeavam em excomungar quem não participasse do culto na igreja, punindo com a perda do direito de voto e de propriedade o faltoso pregresso. Não se permitia praticamente nada senão a participação no culto na igreja e conversas entre vizinhos. Dançar era considerado pecaminoso; festas ou diversão para jovens eram proibidas, tudo que dava prazer era considerado obra do diabo, e era dever de cada membro da comunidade zelar para que o diabo não marcasse presença ali. A comunidade acreditava ainda que seus principais líderes haviam sido escolhidos por Deus e que  o paraíso já lhes estava reservado antecipadamente. Para os demais membros, a salvação era considerada difícil, pois o zelo pelos bons princípios estava permanentemente ameaçado pelo diabo, com suas artimanhas,  enganações e tentações fatais. Desse modo, era preciso levar uma vida austera e trabalhar duro para afastar as tentações e cair nas graças de Deus.

                Baseavam seus preceitos nos rígidos preceitos bíblicos do Velho Testamento. Para eles, Satanás tinha seus coadjuvantes na terra: bruxas, feiticeiros, e outros seres que escolheram servir à obra do mal, fazendo um pacto com ele.

 

Foi sob esse cenário que Betty Parris, filha adolescente do revendo Parris, pastor da comunidade, e suas amigas Abigail Williams, Anne Putnan, e Mary Walcot, começaram a ter  pesadelos e alucinações, acusando algumas pessoas da comunidade de bruxaria.

 

Isso se explica pelo fato da família Parris ter uma escrava, Tituba, que  havia trazido de Barbados, lugar em que os negros mantinham crenças como o vodu.  Na verdade, Tituba era originária da Venezuela, de raízes indígenas, em cujas crenças acreditava. Fora levada para Barbados, de onde a família Parris a trouxe como criada.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Tituba conta estórias para Betty

e sua amiga (Museu de Salém)

 

Como não tinham lazer algum, elas se reuniam para ouvir estórias que Tituba contava de seu lugar de origem. Parece que certa vez Tituba as levou inocentemente para a floresta, no começo da noite, e dançou com elas, como faziam os negros em Barbados.  Essa transgressão, porém, pesou na consciência das meninas.  E por esse “crime”, as meninas começaram a se autopunir, tendo crises de choros, desmaios, catalepsias, convulsões e falta de concentração quando estavam no culto na igreja. Tinham pesadelos, e mesmo nos pesadelos as mocinhas – a mais nova com 9 anos e a mais velha com 16 – compartilhavam da mesma representatividade: viam um homem negro, muito alto, que as raptava e as  obrigava a assinar um livro de capa preta, que as tornaria um membro adorador do diabo. Como se recusavam, ele xingava, e as obrigava a assistir a uma cerimônia  onde muitas pessoas que já haviam aceito seu convite beijavam-lhe os pés e as mãos. 

 

Um objeto que

  acreditavam servia 

  para invocar o diabo. (MUSEU DE SALÉM)

 

A primeira a apresentar esses sintomas foi Betty Parris, a filha do reverendo. Como não encontrassem explicações para o fato, passaram a acreditar que ela estivesse possuída pelo demônio, a mando de alguém. Sua prima Abigail acabou confessando a dança com Tituba, e a escrava foi forçada, sob castigo, a confessar que o diabo estava se servindo dela para corromper as meninas. Ela foi a primeira a ser acusada de bruxaria, mas se safou da morte pelo fato de confessar o seu “crime” e reconhecer que o diabo a estava usando contra sua vontade.

Para se livrarem da culpa, elas começaram a acusar as pessoas do lugar de terem parte com o demônio. Às vezes olhavam fixamente para um ponto, com o olhar vazio, diziam que tinham visões onde viam algumas pessoas da comunidade participando do culto de adoração ao diabo, beijando-lhe as mãos e se submetendo aos caprichos dele. 

 

Considerando-se predestinados a herdar o reino dos céus, os puritanos viram nesses acontecimentos uma forte tentativa de Satanás para subverter essa predestinação, como na tentação de Jesus, onde ele prometia os reinos do mundo ao sagrado Mestre. Acreditavam ainda que o diabo vivia nas florestas próximas, aguardando a melhor ocasião para agir e destruir a comunidade, de modo que a dança na floresta não foi considerada somente uma transgressão aos rígidos princípios dos puritanos, mas um indício da vitória de Satanás sobre o Bem que eles representavam.

 

Depois de Tituba, as três primeiras pessoas a serem acusadas pelas meninas foram  Bridget Bishop e Sarah Good, duas mulheres meio mendigas da comunidade, e  Sarah Osborne, que, simplesmente pelo fato de quase não frequentar a igreja, era considerada uma mulher de vida dissoluta.

Foi instaurado um tribunal na cidade para julgar os casos de bruxaria, e o governador de Massachusetts mandou um representante - que também era puritano -, para comandar o tribunal.

 

 

                                                       CONTINUA

 

 

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