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O Universo Inflacionário

 

Andrei Linde

   O físico russo Andrei Linde nunca estudou economia. Mas propõe um cosmos dominado por inflação "desenfreada", capaz de criar outros universos!

 

 

      O russo Andrei Linde é um dos mais importantes físicos da atualidade. Faz parte de uma elite de cérebros preocupada em investigar a origem do Universo e seu destino final. Desde os anos 40, esses cientistas aperfeiçoam uma teoria segundo a qual o Cosmos nasceu há cerca de 15 bilhões de anos numa explosão descomunal, o Big Bang, que catapultou matéria e energia em todas as direções. Com o passar das eras, formaram-se as galáxias, estrelas e planetas. Como o Universo continua em expansão, um dia as estrelas consumirão todo o seu combustível e se extinguirão, para mergulhar o espaço em uma eterna escuridão gelada. Será o fim da vida. Este quadro, no entanto, mudou radicalmente em 1983, quando Andrei Linde trabalhava em Moscou no renomado Instituto Lebedev de física e formulou uma nova e revolucionária teoria, a da expansão inflacionária do Universo. Segundo o físico russo, não existiu um, mas infinitos Big Bangs, e cada um formou um universo-bolha como este onde existem a Via Láctea, o Sol e o planeta Terra. A nova teoria não para por aí. Prevê inúmeros novos Big Bangs no futuro, num universo que sempre existiu e jamais se extinguirá. Um cosmos eterno onde gênesis e permanente e, portanto, prescinde de um Deus. Em 1990, o simpático e bem-humorado professor Linde transferiu-se para a Universidade de Stanford, em Palo Alto, Califórnia, uma das mais respeitadas instituições de ensino no planeta e celeiro de diversos prêmios Nobel. Ali, enquanto estuda a possibilidade de estudar novos universos, Linde, 47 anos, concedeu essa entrevista exclusiva a ISTOÉ.

 

ISTOÉ - Em 1983, o senhor sugeriu uma alternativa à teoria do Big Bang a qual batizou de teoria inflacionária. Poderia explicá-la?

Andei Linde - Segundo a teoria do Big Bang, o Universo nasceu numa explosão colossal há 15 bilhões de anos. Essa teoria, no entanto, não explica o que ocorreu antes do Big Bang nem onde ele surgiu. É aí que entra a teoria inflacionária, da qual eu sou um dos formuladores. Segundo ela, o universo é formado por uma "sopa" de plasma, onde não existem átomos, nem estrelas, nem galáxias. A densidade e a temperatura do plasma são variáveis. Existem regiões do universo mais ou menos densas e essa densidade também varia com o tempo. Quando um determinado ponto do universo atinge densidade máxima, esse ponto explode num Big Bang para criar uma região no espaço que chamamos universo-bolha. Nesse momento, a teoria original do Big Bang torna-se válida, pois a bolha em expansão começa a produzir partículas subatômicas e depois átomos, galáxias e estrelas. O universo visível que observamos pelos telescópios pode pertencer a uma dessas bolhas, uma região do universo onde a densidade do plasma atingiu proporções extremas há 15 bilhões de anos, quando explodiu em um Big Bang. Existem, portanto, outras regiões do universo onde o plasma ainda não atingiu tal densidade. Quando atingir, surgirão novos universos-bolha. Da mesma forma, existem regiões no passado que já se expandiram, criando universos-bolha paralelos ao nosso. É um processo terno de expansão universal onde a região em que vivemos é apenas uma entre inúmeras que já existiram e ainda surgirão. Não há fim na evolução do Universo, a inflação jamais acaba. Em alguns pontos, serão criadas regiões do espaço semelhantes ao nosso universo. Mas elas também podem ser diferentes. Cada Big Bang pode criar um universo-bolha com suas próprias leis físicas. As leis da natureza que valem para a nossa bolha podem, no entanto, não valer para muitos outros.

 

ISTOÉ - Desde o século XIX, sabe-se que o nosso universo está morrendo. Um dia, bilhões de anos no futuro, o combustível do Sol e das estrelas se consumirá, mergulhando o cosmos na escuridão gelada. Caso existam outros universos-bolha, a humanidade poderia mudar-se para um deles e evitar a extinção?

Linde - A nossa região do universo, que está esfriando, é uma bolha que se expandiu no passado, uma região onde as estrelas estão consumindo seu combustível e um dia apagarão. Existem, no entanto, outros lugares no universo onde não existem estrelas bem como outros universos-bolha onde a expansão já ocorreu, Mas a possibilidade de mudar-se para qualquer um deles não existe. A distância entre uma região e outra é incomensurável, muitas vezes superior à que separa a Terra das regiões mais distantes vistas pelos astrônomos. Segundo a teoria da relatividade de Einstein, nada pode ser mais rápido que a luz (300.000 km/s). Mesmo que isso fosse possível para atingir outro universo seria preciso viajar por um tempo muito superior aos 15 bilhões de anos do nosso universo-bolha. Ainda sim, jamais atingiríamos as fronteiras da bolha, pois elas continuam em expansão e seu limite está cada vez mais longe.

 

ISTOÉ - Nas série de TV Jornada nas estrelas, a novíssima geração, existem buracos de minhoca. São portões espaciais que ligariam diversas regiões do universo, ou mesmos universos diferentes. Caso esses buracos existam, não seriam uma talho para saltar do nosso universo a outro?

Linde - Se existirem buracos de minhoca, isto talvez seja possível. Mas podem existir buracos de diferentes tipos, muito diferentes daqueles de ficção científica de Jornada nas Estrelas. Pode haver buracos microscópicos, que nenhuma nave espacial atravessaria, ou buracos que funcionariam como máquinas do tempo. Quem os atravessasse poderia voltar no passado e conhecer sua avó antes dela saber se iria casar com seu avô ou não . A possibilidade de usar buracos de minhoca para viajar a outros universos é mais improvável que a possibilidade de criar novos universos em laboratório.

 

ISTOÉ - Como assim? Criar universos em laboratório poderia destruir o nosso?

Linde - A ideia de criar universos em laboratório é defendida por diversos cientistas, inclusive eu mesmo. É uma possibilidade fascinante embora não saibamos se é praticável. Se todo o universo visível pode ter se originado a partir de uma região extremamente pequena do espaço onde a densidade era extrema, então talvez poderíamos produzir aquelas mesmas condições em laboratório. Seria preciso comprimir violentamente uma determinada quantidade de matéria até se atingir a densidade máxima que originou o Big Bang. Isto hoje não é possível. Mas, em caso afirmativo, não seria perigoso. O novo universo se expandiria destro dele mesmo e não sobre o nosso.

 

 

 

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