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A HISTÓRIA DE JESUS

G. DE PARUCKER

 

 

Capítulo VI

 

 

O MISTÉRIO DA CRUCIFICAÇÃO:

A Espetada da Lança, e o Brado na Cruz

 

 

            A crucificação em si era uma das fases do antigo rito cerimonial. O neófito em transe era deitado em um sofá cruciforme, um sofá em forma de uma cruz, com os braços estendidos; e durante três dias e noites - e às vezes por um período mais longo, como seis ou até mesmo nove dias e noites - o espírito do neófito atravessava as esferas do ser cósmico, então aprendendo em primeira mão os mistérios do universo. Pois eu lhes digo verdadeiramente, há um modo de soltar o espírito do homem das armadilhas e cadeias de sua parte inferior; de forma que, livre, pode passar como um peregrino de planeta em planeta e de planeta ao sol antes que volte ao corpo terreno que ele havia temporariamente deixado.

Nesta conexão há uma passagem sumamente interessante, muito profundamente mística e sugestiva de um do Eddas escandinavos, tomado do que é conhecido como Canção Runa de Odin.

É como segue:  

 

Eu sei que estive suspenso numa árvore balançada pelo vento, nove noites inteiras, 

Com uma lança ferido e a Odin oferecido – de mim para eu mesmo -  

Naquela árvore que ninguém sabe de que raiz brota.

 

Nessas poucas linhas esta passagem do Edda dá outra versão, e uma mais interessante, da crucificação-mistério. A referência também a "estar suspenso numa árvore" é muito sugestiva, porque esta mesma frase era frequentemente usada nos primitivos escritos Cristãos como significando "suspenso na cruz ". Nesta história mística escandinava, a árvore aqui é evidentemente a árvore cósmica que é um jeito místico de dizer o universo incorporado; pois o universo entre o antigos de muitas nações era retratado ou figurado sob o símbolo de uma árvore da qual as raízes brotavam do coração divino das coisas. O tronco e os galhos e os ramos e as folhas eram os vários planos e mundos e esferas do cosmos; a fruta desta árvore cósmica que contém as sementes de futuras árvores, como sendo as entidades que tinham atingido pela evolução o fim de sua viagem evolucionária, como os homens e os deuses – eles mesmos diminutos universos, e destinados no futuro a se tornarem entidades cósmicas quando a roda cíclica do tempo terá virado pelos grandes aeons sua majestosa volta.

 

            Essa versão escandinava da crucificação cósmica, cuja crucificação também é mencionada por Platão em uma forma grega, refere ao Logos cósmico "crucificado" em e sobre a árvore-mundo cósmica da qual o mesmo Logos é o espírito avivador e intelectual.

            Toda a iniciação, quão distante alcance o rito pictórico ou simbolismo figurativo, retratava a estrutura mística e as operações e segredos do universo oculto como expresso nos atos e palavras do Mestre iniciador e do neófito.

 

A espetada da lança era um das partes do rito iniciatório ou cerimônia, tendo seu significado particular próprio, mas não era um ato físico que causa uma ferida física. Em alguns dos cerimoniais iniciáticos, em vez de se usar uma lança, algum outro instrumento como um punhal era empregado no rito simbólico; mas o significado fundamental em qualquer caso era o mesmo, para se entender que o homem deixava o seu ser pessoal inferior como um sacrifício, de forma que a força e a influência do deus interior pudesse fluir em livre fluxo pela constituição inteira do homem quando ele deixava a câmara de luz depois que a iniciação estivesse completada. A espetada da lança significava a morte do (eu) pessoal, de forma que o homem espiritual interno pudesse ser libertado, destravado, desimpedido.

 

            As últimas palavras, dadas como da cruz, são encontradas nos dois primeiros Evangelhos, em Mateus 27: 46 e em Marcos 15: 34: 'Eli, ‘Eli, lamah shavahhtani'  Essa palavras, chamadas “o brado na cruz”, foram traduzidas em grego no Novo Testamento Cristão como segue, e esta é a versão inglesa da tradução grega: “Meu Deus! Meu Deus! Por que me abandonaste?” Esta é uma falsa tradução para o grego, embora correta do grego para o inglês, porque estas palavras no hebreu original significam “Meu Deus! Meu Deus! Como me glorificas!” Pois estas palavras são do antigo e bom hebreu, e o verbo shavahh[2]  significa "glorificar", e não, certamente, abandonar. Mas no Salmo 22 do Velho Testamento, no primeiro verso, há as seguintes palavras no original: 'Eli, 'Eli, lamah 'azavtani que significa “Meu Deus! Meu Deus! Por que  me  abandonaste?”

 

Isso é prova de que as Escrituras Cristãs estão escritas em forma simbólica e com alusões místicas. Mas por que em nome da sagrada verdade devessem os escritores desses dois Evangelhos usar palavras que são o bom hebreu e ainda dar uma tradução perfeitamente errada delas? Porque a intenção era esconder a verdade e ainda contar uma verdade - tipicamente em linha com a atmosfera mística e à maneira dos antigos ao lidar com os Mistérios. Ambos os significados, o hebreu original e a tradução grega errada estão certas quando apropriadamente entendidos. O homem pessoal, quando morre, sempre brada "Meu Deus! Por que me abandonaste para me tornar pó?" Mas a mais alta, a mais nobre parte do homem, o homem espiritual interno, exclama com um grito de alegria: "Meu Deus! Meu Deus! Como tu me glorificas!" Esta última era uma versão exata da reação natural do neófito ao alcançar a glorificação durante a iniciação. Era o brado simbólico de todo neófito iniciado pelo grande Mestre na vida suprema.

 

Também é uma prova, para aquele que o saiba ler, do caráter simbólico dos escritos dos Evangelhos Cristãos: embora todos os significados estejam confundidos,  foram confundidos deliberadamente, de forma que o ensino real interno não pudesse ser recebido por todo olho curioso que o corresse e tentasse lê-lo; e continham  pensamento sugestivo místico suficientemente para ser uma isca aos homens cujo caráter interno, cujo ser interno, tinha começado a despertar; de forma que lendo essas coisas, vendo essas estranhas discrepâncias e contradições, seus interesses seriam despertados - e eles viriam à porta do Templo e bateriam, dariam a batida certa, e entrariam.

Essas iniciações, seja bem entendido, acontecem mesmo hoje, e acontecem em um certo tempo do ano; e quando essas iniciações ocorrem, o neófito que passou pelo rito com sucesso, e que ganhou sua deidade em sua humanidade, fica por dentro tão elevado e extásico numa condição que por um breve tempo essa divindade interna flui pelo seu ser como o esplendor flamejante de um sol, de forma que na verdade, como os antigos colocaram, ele é vestido com o sol. Quando este evento sublime acontece durante a iniciação, o ser espiritual inteiro do homem responde como se fosse um grito de alegria: "Oh! Meu Deus interior! minha Divindade no âmago de meu ser, como tu me glorificas!" - as mesmas palavras que se atribui terem sido usadas por Jesus na cruz.

Jesus o Cristo foi um do que foram deitados no sofá cruciforme do qual eu falei, e que passou com sucesso no teste terrível; e depois de três dias ele se levantou "dos que estavam mortos", que é o real significado da frase "(se levantou) dos mortos" - não da morte - como um Cristo.

 

O Cristo interior nele se manifestou então. Esta última e suprema fase  dessa iniciação evocava o deus interno, de forma que ele ensinou seus seguidores como quem tinha autoridade, porque ele falou da fonte do poço da verdade dentro dele mesmo. Aquela fonte da verdade é o caminho da autonomia espiritual que é sua ligação com o universo: aquele caminho que sempre conduz cada vez mais para dentro, cada vez mais e mais para dentro, até que mesmo o coração do universo seja percebido ser um consigo mesmo. Todo ser humano em sua natureza espiritual é uma parte inseparável do universo, seu filho: assim por dizer osso de seu osso, carne de sua carne, sangue de seu sangue, vida de sua vida. Como pode ser de outra maneira? Vocês não podem viver fora do universo. Vocês são uma parte dele. E isto é o que os antigos sábios do Hindustão ensinaram quando falaram do atman ou ego espiritual-divino.

 

Eles disseram: Atmanam atmana pasya, "Veja o Ego por meio do ego": quer dizer, entenda a divindade por e pela divindade dentro de você; pois não há nenhum outro modo de se entender a divindade do que por sua própria parte divina. Compreendem os homens imundos seu guardador? Não, porque o imundo não alcançou a humanidade. Mas o homem entende o homem; e o homem por meio do deus interno pode entender a divindade pela mesma regra. Grandeza reconhece grandeza. Gênio responde à chamada de gênio. Divindade reconhece divindade.  

Uma vez que você seguiu este caminho interno, esta autonomia espiritual, por sua própria essência divina, e então cresceu para perceber que sua natureza é da mesma fábrica do universo, então você sentirá que todas as coisas são suas porque são você. Infinidade e eternidade são senão palavras; mas dentro, você terá a natural realização de sua unidade com o sem-fronteiras, ilimitado Todo, sem-limites, de duração ilimitada.  

 

Não, este sábio, este vidente sírio, não foi crucificado, literalmente e fisicamente. Um deus crucificado é uma anomalia no pensamento humano. Mas um neófito crucificado ou aspirante: sim, no sentido em que eu tentei desenvolver o assunto. E há outro uso místico da termo crucificação: um homem pode ser crucificado por suas próprias paixões, rasgado e dilacerado em vez de permanecer como um homem, livre, um homem livre. Esta é uma crucificação muito real e ainda uma crucificação mística; e quando você conhecer um pouco do Cristo interno, atingirá a liberdade; e todo o universo ilimitado será seu playground, não somente em pensamento, não somente em imaginação, não por se sentar em sua poltrona ou se deitar em seu sofá e pensar que é fulano de tal, mas por experiência natural; pois um homem pode soltar seu espírito e continuar com ele até mesmo ao e passar além dos portais do sol.  

 

Os Mistérios antigos eram guardados com extremo cuidado, e quando qualquer referência era feita a eles - as penalidades pela traição dos segredos da iniciação eram extremamente severas - tal referência era feita em tropo, por metáfora, por figura de linguagem, por conto de fadas, por mitos, por uma história. Nada era tão disfarçado que outro iniciado não o pudesse ler. A verdade fora dita aí, mas somente aqueles que tinham a chave para essa linguagem mística poderiam entende-la. Para esses que não tinham essa chave, a referência ou o recital parecia ser um mero mito ou lenda estranha.  

 

O homem Jesus foi verdadeiramente um Christos, simplesmente porque aquele avatar palestino manifestou a divindade da qual era o portador. Todo ser humano tem um similar mas não idêntico fim ante ele como seu destino – quer dizer, a manifestação do seu próprio deus interno, o seu “Pai no Céu”. (Note a distinção entre o avatar por um lado, e por outro, um que se torna um buda, a manifestação ou portador do seu próprio deus interno). Esta é então a mensagem do Natal. Esqueça em seu sentido literal a velha história do bebê na manjedoura e todas as outras decorações legendárias dadas (as quais homens piedosos mas ininteligentes deram) para a mais grandiosa estória na história humana de modo a transportar facilmente dentro das mentes dos ininstruídos a história de uma iniciação espiritual não somente aplicável a Jesus mas a uma longa linha de grandes sábios que o precederam e que o seguiram; esqueça do teor literal de tudo isso, e se lembre que o significado essencial da história do Cristo é o Cristo vivo dentro de você, nascido novamente toda vez que um homem se entrega ao seu eu espiritual, ao deus dentro de si. Então o Cristo “nasceu de novo”.

 

 

                                                                                FIM

 

 

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[2] O ponto inteiro deste Brado assim denominado da Cruz jaz  nos significados e força do verbo hebreu shavahh pois esse verbo significa várias coisas, como, por exemplo, "trazer paz a" "glorificar”, "acalmar", e tudo com a atmosfera de recompensa consequente, ou talvez melhor, os frutos de alguma notável realização espiritual e intelectual. O outro verbo mencionado no texto, 'azav', significa "abandonar " ou "renunciar a".

 

 

 

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